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sábado, 14 de abril de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital-barraca do arraial de D. Afonso Henriques



Decorria o mês de Junho do ano da graça de 1147 quando as tropas de D. Afonso Henriques se reuniram com os exércitos de cruzados flamengos, coloneses, bolonheses, bretões e escoceses, no arrabalde de Lisboa; de comum acordo determinaram enviar parlamentários à cidade, nos quais se incluíam o Arcebispo de Braga e o Bispo do Porto, para uma tentativa de obter uma rendição pacífica dos muçulmanos que habitavam Lisboa; fizeram sinal de parte a parte, pactuando tréguas para que dissessem o que queriam. Discursou o Arcebispo de Braga, pedindo que entregassem apenas a fortaleza do castelo, por troca com o direito de manterem os habitantes da cidade as suas casas a liberdade pessoal; recusaram os árabes da cidade afirmando que “só a ferro se abrirão as portas da cidade[1]. Retirou-se então o rei para um monte a norte da cidade, iniciando no dia seguinte o cerco por parte de terra e pelo lado do mar; instalam-se os coloneses e flamengos a oriente, os ingleses e normandos a ocidente, construindo cada grupo uma igreja para sepultura dos mortos. Procede-se à construção de máquinas de guerra, minam-se as muralhas para criar brechas, apela-se a Deus, deixa-se morrer à míngua o povo aprisionado no castelo e peleja-se com violência entre sitiantes e sitiados, até ao mês de Outubro.

Segundo a Chronica dos Cónegos Regrantes de D. Nicolau de Santa Maria, D. Afonso Henriques mandou constituir junto de cada arraial uma enfermaria em tendas, para os feridos do cerco a Lisboa; cada tenda teria no seu topo um altar, onde foi colocada uma imagem da Santíssima Virgem da Conceição, lavrada em pedra de Ançan, que tomou o nome de Nossa Senhora da Enfermaria após ter servido aos feridos. Parece ter sido edificada mais tarde uma capela da mesma invocação, junto ao arraial dos alemães, situado a leste da cidade, no monte mais tarde ocupado por S. Vicente de Fora, a qual se encontra referenciada em bula pontifícia de Pio IV ao rei D. Sebastião em 1561. A cidade é tomada pelos cristãos, sendo organizada a partir da capela uma procissão comemorativa a 25 de Outubro de 1147, encabeçada por El-Rei e seguida por coloneses, bretões, flamencos, aquitanos, normandos e todo o povo, dirigindo-se às Portas do Sol.[2]

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- FRANÇAIS: L'hôpital-tente dans le camp des gens de guerre de D. Afonso Henriques:
Dans le mois de juin de 1147, quand les troupes du roi Afonso Henriques étaient réunies avec les armées des croisés flamands, colonais, bolognais, bretons et écossais, dans la banlieue de Lisbonne, il se sont mis d’accord pour envoyer des émissaires à la ville, comprenant l'archevêque de Braga et l'évêque de Porto, dans une tentative d'obtenir une renddition pacifique des musulmans qui habitaient à Lisbonne ce temps-là; après faire signe d'une partie à l’autre, les deux forces ont accordé des trêves pour dire ce qu'ils voulaient. Il y a parlé l'archevêque de Braga, en les demandant de se rendre et abandonner seulement la forteresse du château, en échange du droit de maintenir leurs maisons et avoir de la liberté personnelle; les Arabes ont refusé, en disant que "seulement le fer va ouvrir les portes de la ville". Après ça, le roi s’est écarté vers la colline au nord de la ville, pour commencer le siège le jour suivant, de la  côté de la terre et aussi par la mer; les colonais et les flamands s’installent à l’orient, les Anglais et Normands à l’occident de la forteresse, en construisant chaque groupe une église pour inhumation de ces morts. On commence la construction de machines de guerre et à saper les murs pour faire des brèches, on appelle à Dieu, on laisse mourir de faim la population emprisonnée dans le château et on bataille avec violence, assiégeants et assiégés, jusqu'au mois d'octobre.
D’après la Chronique des Chanoines Reguliers de Nicolau de Santa Maria, le roi Afonso Henriques a commandé la construction, près de chaque camp, d’une infirmerie dans des tentes pour les blessés du siège de Lisbonne; chaque tente aurait à sa tête un autel, où a été placée une image de la Vierge de l'Immaculée Conception, sculptée en pierre, qui a pris le nom de Notre Dame de l’Infirmerie après avoir servi les blessés. Il semble avoir été construite plus tard une chapelle dans la même invocation, à côté du camp des Allemands, situé à l'est de la ville, dans la colline occupé plus tard par le Monastère de S. Vicente de Fora, qui est référencée dans bulle papale de Pie IV au roi Sebastião en 1561. La ville a enfin été prise par les chrétiens, et pour le commémorer,  on a fait une procession le 25 Octobre 1147, dirigé par le roi, suivi par colonais, bretons, flamands, aquitaniens, normands et tout le peuple, s'adressant aux Portas do Sol (Portes du Soleil).

- ENGLISH: Hospital-tent of D. Afonso Henriques:
In June of 1147, when the troops of king Afonso Henriques met with the armies of Flemish, Cologne and Bologna people, British and Scots crusaders, in the suburbs of Lisbon, they determined to send to the city some parliamentarians, in which are included the Archbishop of Braga and the Bishop of Porto, in an attempt to get a peaceful surrender of the Muslims who lived in Lisbon; both sides agreed to a truce, to say what they wanted. The Archbishop of Braga made a speech, asking the surrender of the fortress, in exchange to less the townspeople in their homes and personal liberty. The Arabs refused, saying that "only the iron will open the gates "[1]. Then the king withdraw to a hill at north of the city, beginning the day after the siege by land and by sea side; the cologne and the flemish soldiers settled in east, the English and Normans in west, building each group a church for the burial of their dead. They proceed, building war machines and sapping the walls to create loopholes, appealing to God, letting the people imprisoned in the castle in starvation and fighting violently, besiegers and besieged, until the month of October. According to the Chronicle of the Regular Canons of Nicolau de Santa Maria, king Afonso Henriques has sent from each camp an infirmary tent for the wounded  of Lisbon’s siege; each tent would have an altar at the top, where it was placed an image of the Virgin of the Conception, carved in stone, named Lady of Infirmary after having served the wounded. It seems to have been built later a chapel with the same invocation, in the camp of the Germans, situated at east side of the city, on the hill later on occupied by S. Vicente de Fora Monastery, which is referenced in the papal bull of Pius IV to King Sebastian in 1561. The city was taken by Christians, who organized a commemorative procession from the chapel in the 25th October 1147, headed by the king, followed by cologne people, britons, flemish, aquitains, normans and all the people, addressing to the Porta do Sol (Sun Door).

[1] Anónimo, Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147 – Carta de um Cruzado inglês que participou nos acontecimentos, apresentação e notas de José Felicidade Alves,  2ª Ed., Livros Horizonte, 2004, p. 42
[2] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. II, Câmara Municipal de Lisboa, 1935, p. 219-220

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