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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de campanha durante o cerco de Lisboa de 1384


Em Maio de 1384 chega a Lisboa a frota do rei D. João de Castela, tendo como objectivo cercar a cidade; desembarcadas as tropas, montaram arraial junto ao mosteiro de Santos (no qual o próprio rei se hospedou), ocupando o território até Alcântara e Campolide; pelo lado do rio, as embarcações montaram cerco desde Cataquefarás até à Porta da Cruz. O Mestre de Avis entendeu então fazer a defesa da cidade ao longo de toda a extensão da sua muralha, tendo encerrado as portas, as quais só eram abertas durante o dia; a guarda dos muros foi repartida por fidalgos e cidadãos honrados, que tinham sob o seu comando besteiros e homens de armas, formando quadrilhas.
Junto à porta de Santa Catarina foi então montado um verdadeiro hospital, tal como nos relata primorosamente Fernão Lopes: “Acerca da porta de Santa Caterina, da parte do arreal per onde mais acostumávom sair à escaramuça, estava sempre uma casa prestes, com camas, e ovos, e estopas, e lençóis velhos pera romper, e celorgião, e triaga, e outras necessárias cousas pera pensamento dos feridos, quando tornávom das escaramuças.”[1]
Poderemos considerar que se tratava de um verdadeiro hospital militar, com predomínio na área da cirurgia, como é habitual neste tipo de hospitais e onde se destacava a presença, aparentemente constante, de um cirurgião (celorgião), fármacos (triaga) e material de penso. Os ovos e a estopa eram usados numa mistura muito popular até ao século XVIII, denominada estopada, e dos lençóis velhos se faziam ligaduras para envolver as feridas.
Terá porventura sido o primeiro hospital de Lisboa com médico residente?

Hôpital de campagne pendant le siège de Lisbonne en 1384:
En mai de 1384 la flotte du roi Jean de Castille arrive à Lisbonne, dans le but d'encercler la ville ; on a fait débarquer les troupes, qui s’installent dans un campement près du monastère de Santos (où le roi lui-même a séjourné), occupant le territoire jusqu'à Alcantara et Campolide; du côté du fleuve, les bateaux ont assemblé un siège depuis Cataquefarás jusqu’à la Porta da Cruz (Porte de la Croix). Le Maître d'Avis (qui sera le futur roi Jean I) a compris alors de faire la défense de la ville sur toute la longueur du mur et a demandé de fermer les portes, qui étaient ouvertes uniquement pendant la journée; la garde des murs a été divisé par de nobles et honorables citoyens, qui avaient le commande de groupes de arbalétriers et d’hommes d'armes.
Près de la porte de Santa Catarina fût monté un vrai hôpital, à croire dans les mots de la chronique de Fernão Lopes: «Près des Portes de Santa Catarina, sur la place où étaient la plupart des gens d’armes et où l'escarmouche était plus fréquente, il y avait toujours une maison avec des lits, et d’œufs, et d’étoupière, des vieux draps de lit pour déchirer, avec un chirurgien et thériaque, de matériel de pansement et d'autres choses nécessaires pour traiter les blessés lors qu’ils arrivent de l’escarmouche.» [1]
Nous considérons qu'il s'agit d'un véritable hôpital militaire, principalement dans le domaine de la chirurgie, comme il est habituel dans ce type d'hôpitaux de guerre, où se détachait la présence, apparemment constante, d’un chirurgien, des médicaments (thériaque) et matériel de pansement. Les œufs et toile de étoupière étaient utilisés dans un mélange très populaire jusqu'au XVIIIe siècle, appelé estopada, et les vieux draps s’utilisaient pour faire bandages aux blessures.
Peut être que cet hôpital a été le premier hôpital de Lisbonne avec un médecin résident.

Field hospital during the siege of Lisbon in 1384:
In May 1384 the fleet of King John of Castile arrives at Lisbon, aiming to encircle the city; they landed troops, set up a camp near the monastery of Santos (in which the king himself stayed), occupying the territory between Alcantara and Campolide; by the river side, the boats surround the city from Cataquefarás to the Porta da Cruz (Cross door). The Master of Avis (future King John I) made the defense of the city along the entire length of the wall, and closed the city doors, which were open only during the day; the wall’s defense was shared by noblemen and honorable citizens, who had groups of cross-bowmen and soldiers under their command.
At the door of Santa Catarina was then mounted a real hospital, as reported in Fernão Lopes chronicle: "Near the Santa Catarina door, the local part where most of troops are and the skirmish occurs, was always a house with beds, and eggs, and oakum, and old sheets to be teared, and surgeon and theriac, dressing material and other necessary things to the wounded dress when they return of skirmishes." [1]
I consider that this was a true military hospital, predominantly in the area of surgery, as was usual in this type of war hospitals, and stood with the presence, apparently constant, of a surgeon, drugs (theriac) and dressing material. Eggs and oakum were used in a mixture very popular until the eighteenth century, called estopada, and old sheets were used to make bandages for wounds.
Perhaps it was been the first hospital in Lisbon with a resident doctor.




[1] Fernão Lopes, Primeira parte da Crónica de D. João I, vol III, 2ª ed., Lisboa, Livrarias Aillaud & Bertrand, 1922, p. 24-25

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