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domingo, 14 de outubro de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de Salomão Negro


Temos conhecimento de numerosos judeus no território do reino de Portugal desde antes da fundação da nacionalidade até ao século XV. Tendo a comunidade hebraica um importante papel na sociedade portuguesa, nomeadamente junto do rei, aconteceu que, por força do contrato de casamento de D. Manuel I com a filha dos Reis Católicos, foram os judeus obrigados à conversão ao cristianismo ou à expulsão de território nacional, em 1497. A comunidade judaica circulava livremente pelo território nacional mas estava sujeita a leis de apartamento, em que as habitações teriam de se concentrar num determinado local; no entanto, era livre de manter e praticar a sua religião e possuía magistratura própria para o julgamento dos seus crimes, sem que fosse esquecida a sua submissão às ordenações gerais do país. Obrigados a viver nas cidades apartados de cristãos e muçulmanos, os judeus habitavam nas diversas Judiarias de Lisboa. Inicialmente, as judiarias comunicavam livremente com o exterior, mas D. Pedro I decretou que fossem encerradas por portas, as quais se encerravam ao anoitecer, para serem novamente abertas ao nascer do sol. A Judiaria Velha ou Judiaria Grande de Lisboa localizava-se na freguesia da Madalena, num espaço limitado geograficamente pelas igrejas de S. Nicolau a oeste, Madalena a oriente, S. Julião a norte e rua Nova dos Mercadores a sul.[1] A comunidade judaica possuía escolas próprias, cultivando os estudos de Astrologia, Matemática, Geografia, Medicina e Cirurgia; tendo longa tradição no exercício da Medicina, vários médicos judeus progrediam com altos cargos na corte portuguesa. Talvez a família hebraica mais importante do reino fosse a família Ibn Yahya, com vários dos seus elementos exercendo o cargo de Rabi-mor de Portugal, por nomeação régia. Chegou-nos o conhecimento de muitos médicos importantes dessa família, nomeadamente Yahya ibn Ya’ish, “o Negro” (físico de D. Afonso Henriques), Moshe Gedaliah ibn Yahya ou Moisés Navarro de Santarém (físico de D. Pedro I), Gadaliah ibn Yachya ha-Zaken (físico-mor de D. Fernando), Yehudah ibn Menir ibn Yahya / Navarro (tesoureiro e físico de D. Pedro I e D. João I), Moshe Navarro, também conhecido por Mestre Moussem (físico de D. João I), Gedaliah ben Shlomo ibn Yahya ou Mestre Guedelha (físico e astrólogo de D. Duarte e D. Afonso V) e Abraham Guedelha ou Mestre Abram (físico-mor da princesa D. Beatriz, cunhada de D. Afonso V[2]).
No contexto das leis de apartamento, torna-se natural que a abastada comunidade judaica possuísse hospitais próprios, sendo que o local mais apropriado em Lisboa se situasse na Judiaria Grande; tomámos conhecimento de dois hospitais situados nesse bairro de judeus, sendo um deles hospital de banhos e o outro conhecido como Hospital de Salomão Negro. Este último encontrava-se localizado na Rua da Praça, ao Poço da Foteia, na área actualmente situada entre a Rua do Comércio e a Rua de S. Julião. Foi fundado por Shlomo ibn Yahya ben David, também conhecido como Salomão Guedelha ou Salomão Negro, judeu (1367-1430), que o legou, com mais bens, à comuna dos judeus.O hospital foi incorporado no Hospital de Todos-os-Santos[3]  cerca de 1503.


[1] João Silva de Sousa, Mouros e Judeus na Cidade de Lisboa nos séculos XIV e XV, http://triplov.com/letras/Joao_Sousa/mouros-e-judeus/index.htm
[2] Reuven Faingold, Judeus nas cortes Reais Portuguesas, www.reuvenfaingold.com/artigos/12.pdf
[3] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11

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