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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

SANTOS-O-VELHO - Período Romano: Histórias e lendas


O lugar a que hoje chamamos de Santos-o-Velho é ocupado pelos povos desde há vários séculos.
Da ocupação romana conhecemos a existência de uma estrada que partia da cidade, atravessava o esteiro do Tejo onde se localizava o porto interior de Olisipo (no local da actual Rua do Arco do Bandeira), provavelmente por uma ponte de tabuleiro de madeira antecessora da ponte medieval da “Galonha”, contornaria a encosta do Carmo até ao Chiado e ao Largo de Camões, seguiria em direcção ao Calhariz até ao local onde mais tarde se abriria a porta de Santa Catarina na Cerca Fernandina e tomaria provavelmente a direcção do Guincho. Ao longo dessa estrada, de características rurais, localizavam-se numerosos casais ou villae de grande qualidade, não sendo portanto difícil de imaginar que alguns deles ocupariam a área que hoje designamos por Santos-o-Velho.[1]
Certa é a ocupação romana durante a Antiguidade Tardia, da qual parece provir uma inscrição romana encontrada por André de Resende no jardim do Palácio de Santos, onde se achava guardada, ao tempo de D. Francisco de Lencastre no século XVII, que ele, juntamente com o seu amigo Francisco de Holanda copiou e que assim dizia:[2]

L. VALERIVS. GAL.                      Lúcio Valério Galo
            SEVERVS. NA. L.                       Severo, de cinquenta anos,
H. S. EST. T. L. FILI....                  aqui está sepultado. Tito, filho de Lúcio
PATRI. P. C. ET.                           lhe erigiu esta memória, juntamente com
Q. SERTORIVS.                           Quinto Sertório
CALVVS. AFFINIS.                      Calvo, seu parente.

Desconheço o destino de tal inscrição, que parece ter-se esfumado do património lisboeta desde então.
No período romano a religião cristã foi assumida no séc. IV pela cidade episcopal. No entanto, o imperador Diocleciano desencadeou no ano de 303 até ao ano de 305, uma forte perseguição aos cristãos por todo o seu império.
Provém do período romano a conhecida lenda dos três mártires, considerados Santos, que foram supliciados na cidade e executados por ordem do prefeito romano Daciano[3]. Por outo lado, segundo um cruzado que participou na conquista de Lisboa ao lado de D. Afonso Henriques, o Arcebispo de Braga discursou sobre a muralha da cidade, por altura de um pacto de tréguas para conversações entre as partes, na tentativa do rei português obter a rendição pacífica da cidade, do seguinte modo: “... Na mesma cidade é testemunha disso [da destruição da fé cristã] o sangue dos mártires Máxima, Veríssimo e Júlia virgem, derramado pelo nome de cristo, no tempo de Ageiano, governador romano.[4] Segundo a lenda, os três mártires seriam irmãos, provenientes de Roma (outra versão dá como Lisboa a sua origem) e parece terem sido supliciados pelas autoridades romanas; após o suplício, que culminou na sua morte, os corpos foram atados a pedras e deitados ao rio Tejo entre Lisboa e Almada, tendo os corpos sido arrojados à costa num local a poente da urbe de Lisboa; os mártires Veríssimo, Máxima e Júlia[5] constituíram assim a génese de devoção do povo cristão neste local.
Sabe-se que as primeiras referências aos três santos mártires de Lisboa se encontram no Martirológio de Usuardo, monge benedictino falecido cerca de 858 ou 876, consoante diversas as versões e parece que lhes foi construído um templo, ao tempo dos visigodos, no local aproximado ao que hoje designamos por Santos-o-Velho.
Santos Mártires Veríssimo, Maxima e Júlia - Desembarque em Lisboa (séc. XVI, óleo sobre madeira, Museu Carlos Machado)

Não parecem restar dúvidas sobre a ocupação romana do local, assim como da existência de três cristãos aí supliciados, eventualmente no séc. IV, cujo culto, iniciado neste arrabalde de Lisboa, se haveria de generalizar por todo o território português, perdurando no local original durante muitos séculos.



[1] Carlos Guardado da Silva, Lisboa Medieval, 2ª Ed. ed. Colibri, 2010, pg. 49
[2] Júlio de Castilho, A Ribeira de Lisboa, vol. V, 2ª Ed., Câmara Municipal de Lisboa, 1944, pg.73
[3] Mário de Gouveia in Lisboa Medieval – os rostos da cidade, ed. Livros Horizonte, 2007, pg. 372
[4] Autor desconhecido, A Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147 – Carta de um cruzado inglês, 2ª ed.; Livros Horizonte, 2004, pg 41
[5] Flores, Espanha Sagrada, tomo XIV, pg 397.

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Concordo consigo
      Isto não me serviu de nada
      Fiquei na mesma!!!

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    2. Caros Anónimo e Catarina
      Prezo que já soubessem toda a informação sobre o que se passou durante o período romano no bairro de Santos-o-Velho. è sempre bom quando encontramos pessoas informadas!

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