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sábado, 11 de agosto de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital dos membros


Sabe-se que a sua fundação é anterior a 1343, ignorando-se onde estava localizado, conhecendo-se a sua existência pelas referências que lhe são feitas  no testamento de Maria Esteves.[1]


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital do Cónego João Vicente


Fundado cerca de 1338, localizado na freguesia de S. João da Praça, tendo uma mercearia com 6 camas para pobres envergonhados.[1] João Vicente foi Cónego de Lisboa.


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital do Espírito Santo da Alcáçova ou Hospital da Rainha


Encontramos parcas referências a este hospital, embora suficientes para afirmar a sua existência. Desconhece-se a data da sua fundação, mas sabemos que se encontrava instituído em 1335 e se situava na Alcáçova, [1] na freguesia de Santa Cruz do Castelo, sendo governado por uma confraria até ao momento em que foi incorporado no Hospital de Todos-os-Santos.[2] Ao tempo de D. Afonso IV, foi sua mulher, a rainha D. Brites, autorizada a comprar-lhe bens de raiz.[3]

Ruínas da Alcáçova de Lisboa


[1] Carlos Guardado da Silva, Lisboa Medieval – a organização a e estruturação do espaço urbano, Lisboa, Edições Colibri, 2008, p. 240
[2] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 10-11
[3] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Segunda Parte – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. IV, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 122

segunda-feira, 16 de julho de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Mercearia de Bartolomeu Joanes ou Hospital de S. Bartolomeu (ou São Bertolameu)


Considerado um dos mais importantes de Lisboa, foi instituída em 1324, junto à Capela de São Bartolomeu, próximo da Sé, para acolher 12 pobres envergonhados.[1] Não se sabe ao certo quem foi Bartolomeu Joanes; era certamente um “cidadão de Lisboa” , segundo o seu epitáfio, nobre ou nobilitado, porventura tabelião ou mercador, amigo de D. Diniz.[2] Parece no entanto ter sido homem de largas vistas sociais e conhecimentos avançados, construindo o que, na época, se poderia considerar um hospital “moderno”, como veremos.
No seu testamento, exigia Bartolomeu Joanes que o seu hospital para 12 pobres decaídos da fortuna, comportasse também privada (latrina) e que “haja uma cozinha apartada, em que possam bem cozinhar em guisa que não faça nojo no paço...”.[3] Determinou ainda o fundador que cada pobre deveria receber diariamente três soldos para pão, conduto e vinho e anualmente doze côvados de contrafeito ou de valenciana para fazer pelote, capeirão, saia e calças, vinte soldos para calçadura e igual quantia para camisas e panos melhores e uma vez por ano cinco soldos para sangrias. Os leitos deveriam ter almadraque (enxerga de lã de carneiro), cocedra (colchão de penas), almocela (coberta), dois chumaços (almofadas) de penas, dois lençóis, uma manta e uma colcha. O hospital deveria ter possessões que rendessem mil libras cada ano para manter cada doente.[4] Vemos pois que este foi um hospital mandado construir de raíz para o fim a que se proporcionava, contemplando já medidas de higiene, conforto e gestão apropriadas, embora ainda distanciado do que na época se construía no estrangeiro.
Mandou Bartolomeu Joanes construir na Sé a Capela de S. Bartolomeu, de modo a providenciar sede ao hospital, onde os capelães e os pobres do hospital haveriam de orar por sua alma e pela saúde de el-Rei D. Diniz e restante família real;[5] esta capela tinha a meia altura um pavimento de madeira, que a dividia em dois andares com vários compartimentos.[6] Os bens da capela seriam incorporados na coroa, por conta do Hospital de S. José, resultando a completa abolição dos respectivos encargos em 1796. Existe ainda actualmente na Sé de Lisboa, a capela de Bartolomeu Joanes, com construção dos princípios do séc. XIV, em estilo românico e restauro posterior gótico, digna de ser visitada: nela se encontra o túmulo do seu instituidor, com estátua sobre a tampa e epitáfio que nos indica a data do falecimento em 1362 (da era de César, correspondente a 1324 da era cristã), uma inscrição na parede com o regulamento da capela[7] e o presépio da autoria de Machado de Castro.

Para melhor compreensão dos propósitos de Bartolomeu Joanes e para quem for curioso destes assuntos, tomamos a liberdade de aqui deixar um trecho de cópia (com prováveis erros da cópia) do seu testamento, relativo ao hospital:
“... Estabeleço e ordeno hum hospital a honrra de Deos e da Virgem Coroada Santa Maria Rainha dos Anjos, e do bemaventurado Appostollo S. Bartholameo, por cujo o nome eu sou chamado, que ele nom catando os meus merecimentos seja sempre rogador por mim a Deos, e por minha alma que nom seja perdida, e a escolha e leve para si; ao qual esprital mando e quero e ordeno, que se mantenham doze pobres para todo o sempre daquelas coizas que lhe mister fizerem, elhe forem necessárias, e para remover e tirar duvida de qual guiza se deve manter, e para declarar esto minha vontade ordeno que cada hum pobre dos ditos pobres hajam em cada hum dia para sempre de provisão três soldos para pão e para vinho, e para conduto. Item ordeno e mando, que cada um dos ditos pobres hajam em cada hum anno para seu vestir doze covados de contrafeito ou de valenciana para o pellote, e capeirão e saia e para calças. Item vinte soldos para calsadura, e vinte soldos a cada um delles para camisas e panos melhores, e de mais cinco soldos hũa vez do anno para suas sangrias, e quero de mais e ordeno que os ditos pobres de cada dia vão à dita minha capella todalas horas, convem a saber ás Missas e ás vesporas e roguem ahi a Deus por mim que se amerceie da minha alma, como sabe que a mim cumpre; pera o qual esprital mando fazer hum nobre paço pelos meus bens assim como os meus testamenteiros virem que cumpre; e seja feito na freguesia e perto donde fôr a dita minha capella, com tal logar que não seja grande nojo aos ditos pobres quando forem ouvir as horas; no qual paço mando e ordeno que todos comam emsembra a uma tavola, e mando no dito paço pôr doze leitos, e seja cada um leito de uma almadia que é de lã de carneiros, e de uma cocedra de penna, e de uma almaceda de dois chumaços outrossim de penna, e de dois lençoes e de uma manta e uma colcha, e assim a cada um dos outros leitos; no qual quero e mando que haja uma cosinha apartada, em que possam bem cosinhar em guiza que não faça nojo no paço, e não alhures; outrossim que haja hy uma privada para se poderem haver outra casa pequena metão com o dito paço para cosinha, e outra parte para privada ante a comprem, e facam da guiza que da cosinha possão servir no paço por porta que minha vontade é que no dito paço haja tão somente dormidoiro e refeitório, e não al; e a dita cosinha ser estremeada por sy, e como quer que eu a cada hum d’estes pobres mando dar três soldos para comerem em cada dia. Tenho por bem que hajam um mancebo de soldada que lhes merque e cosinhe e uma manceba que lhes sirva e lhes amace; e se tanto sobejar d’esta provisão, manteudos eles, tambem como os de santo, ou melhor, porque os ditos mancebos possam haver suas soldadas pagadas, os meus testamenteiros lhes paguuem desto se nom paguem nos deregido, que ficar de posiçoens desse hospital e capella; e de mais quero que haja hi uma lampada que arça de noite para sempre, que se possam ver estes pobres; e que estes pobres sejam bons e vergonhosos, d’aquelles que houveram algo, e caíram em pobreza, e para se esto cumprir e manter para sempre, mando e ordeno que os meus testamenteiros comprem taes possessões, que rendam muito bem em cada um anno mil livras em salvo, e que esto nom faça nem possa minguar, e comprido todo esto segundo eu mando, do resido que ficar mando que se guarde em cada anno para repairamento e refazimento do hospital, e mantimento dello,...


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 12
[2] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. VI, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 104-106
[3] A. H. De Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa – aspectos da vida quotidiana, Lisboa, edições A Esfera dos Livros, 2010, p. 120
[4] Augusto da Silva Carvalho, Crónica do Hospital de Todos-os-Santos, Edição do V Centenário da Fundação do Hospital Real de Todos-os-Santos, 1992, p. 285
[5] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. VI, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 246-247
[6] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. V, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 57-59
[7] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. VI, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 113-119

segunda-feira, 2 de julho de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de S. Denis, de Odivelas


Foi fundado por D. Diniz, sendo anterior a 1325. Foi incorporado no Hospital de Todos-os-Santos.[1]


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de Santo Eutrópio e Santa Bárbara

Em 21 de Agosto de 1308, o bispo do Algarve D. João Soares Alão instituiu a capela de Santo Eutrópio na paróquia de São Bartolomeu, situada quase defronte da Igreja do mesmo nome[1], na freguesia de S. Bartolomeu (posteriormente denominada freguesia de Santiago). À capela anexou um hospital que acolhia 4 pobres dos dois sexos nas casas que o bispo possuía no Largo dos Lóios[2].

- Hospital de Santa Bárbara: em 1343, é citado no testamento de Maria Esteves; existe a dúvida se seria o hospital designado de Santo Eutrópio e de Santa Bárbara.[3]


[1] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. XI, Câmara Municipal de Lisboa, 1938, p. 61
[2] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11
Carlos Guardado da Silva, Lisboa Medieval – a organização a e estruturação do espaço urbano, Lisboa, Edições Colibri, 2008, p. 244
[3] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11

terça-feira, 12 de junho de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de Nossa Senhora de Belém ou dos Palmeiros e Albergaria dos Palmeiros


Fundado antes de 1292 por peregrinos ingleses, situava-se ao sul da igreja da Madalena, na rua do Hospital dos Palmeiros. A Albergaria era anexa ao hospital.[1] Destinava-se a acolher peregrinos que vinham de Jerusalém, aos quais chamavam palmeiros por trazerem palmas bordadas nas suas capas. O hospital tinha associada uma ermida de invocação de Nossa Senhora de Belém; sobre a porta existia um letreiro que assim dizia: “Este Hospital he dos pobres Palmeyros, e Peregrinos e resgatados delle e de outro Hospital de Cacilhas perto d’Almada; os honrados confrades desta cidade de Lisboa na era de 1330[2], sendo a data referenciada à era de César.
É provável que a sua administração tenha sofrido algumas modificações ao longo dos muitos anos do seu funcionamento, tendo o hospital sido administrado por uma confraria de vinte cidadãos – confraria de Nossa Senhora – segundo Cristóvão Rodrigues de Oliveira (em 1551), ou por vinte e cinco Irmãos dos principais cidadãos desta cidade de Lisboa, que elegiam entre si um provedor e um escrivão que cobravam os foros, segundo o registo do padre José Azevedo Álvaro (após o terramoto de 1755). Havia neste hospital uma hospitaleira, cuja função era de limpar e concertar a casa, e agasalhar os peregrinos.[3] A sua existência está confirmada em 1400, dado que é referenciado no testamento de Catarina Lopes; aí residia na altura Afonso Anes.[4]
Ainda existe a funcionar em 1551, segundo Cristóvão Rodrigues de Oliveira, tendo nesta data renda de oitenta cruzados. Sabe-se também que, por ordem de D. João V, sendo procurador da Coroa o Desembargador João Alves da Costa, foi a sua administração entregue à Congregação do Senhor Jesus dos Perdões, sediada na paróquia de Santa Maria Madalena.[5]  Foi destinado, por alvará régio de 21 de Junho de 1628, a recolhimento de meninos perdidos.[6]
À data do grande terramoto tinha o hospital de renda 86.716 reis, em foros e alugueres de casas; após o desastre e o grande incêndio subsequente, muitas das suas casas se lhe queimaram, ficando apenas com 19.414 reais em foros.[7] Localizado, por altura do terramoto de 1755, na parte ocidental do quarteirão compreendido entre o beco do Cura e a Rua de D. Mafalda (cruzamento das actuais ruas de S. Julião e da Madalena) , temos conhecimento que terá ardido,[8] mas não é possível concluir, pela descrição paroquial ao tempo do terramoto, se o hospital sobreviveu funcionando ou se se extinguiu, como tantas outras coisas na cidade de Lisboa. Certo é que funcionou durante cerca de quinhentos anos, prestando o seu serviço à cidade.


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11 e 12
[2] Paróquias da Baixa-Chiado, Memórias de Uma Cidade Destruída, Alètheia Editores, 2005, p. 117. Vieira da Silva, As Muralhas da Ribeira de Lisboa, 2ª ed., Vol. I, Câmara Municipal de Lisboa, 1940, p. 163-164
[3] Cristóvão Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551 - Sumário (em que brevemente se contêm algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa), Livros Horizonte, 1987, p. 62
[4] Luiz de Macedo, A Rua das Pedras Negras, Lisboa, Edição da UP, 1931, p.24
[5] Paróquias da Baixa-Chiado, Memórias de Uma Cidade Destruída, Alètheia Editores, 2005, p. 112
[6] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Segunda Parte – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. IX, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1937, p. 190
[7] Paróquias da Baixa-Chiado, Memórias de Uma Cidade Destruída, Alètheia Editores, 2005, p. 118
[8] Paróquias da Baixa-Chiado, Memórias de Uma Cidade Destruída, Alètheia Editores, 2005, p. 162