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segunda-feira, 16 de julho de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Mercearia de Bartolomeu Joanes ou Hospital de S. Bartolomeu (ou São Bertolameu)


Considerado um dos mais importantes de Lisboa, foi instituída em 1324, junto à Capela de São Bartolomeu, próximo da Sé, para acolher 12 pobres envergonhados.[1] Não se sabe ao certo quem foi Bartolomeu Joanes; era certamente um “cidadão de Lisboa” , segundo o seu epitáfio, nobre ou nobilitado, porventura tabelião ou mercador, amigo de D. Diniz.[2] Parece no entanto ter sido homem de largas vistas sociais e conhecimentos avançados, construindo o que, na época, se poderia considerar um hospital “moderno”, como veremos.
No seu testamento, exigia Bartolomeu Joanes que o seu hospital para 12 pobres decaídos da fortuna, comportasse também privada (latrina) e que “haja uma cozinha apartada, em que possam bem cozinhar em guisa que não faça nojo no paço...”.[3] Determinou ainda o fundador que cada pobre deveria receber diariamente três soldos para pão, conduto e vinho e anualmente doze côvados de contrafeito ou de valenciana para fazer pelote, capeirão, saia e calças, vinte soldos para calçadura e igual quantia para camisas e panos melhores e uma vez por ano cinco soldos para sangrias. Os leitos deveriam ter almadraque (enxerga de lã de carneiro), cocedra (colchão de penas), almocela (coberta), dois chumaços (almofadas) de penas, dois lençóis, uma manta e uma colcha. O hospital deveria ter possessões que rendessem mil libras cada ano para manter cada doente.[4] Vemos pois que este foi um hospital mandado construir de raíz para o fim a que se proporcionava, contemplando já medidas de higiene, conforto e gestão apropriadas, embora ainda distanciado do que na época se construía no estrangeiro.
Mandou Bartolomeu Joanes construir na Sé a Capela de S. Bartolomeu, de modo a providenciar sede ao hospital, onde os capelães e os pobres do hospital haveriam de orar por sua alma e pela saúde de el-Rei D. Diniz e restante família real;[5] esta capela tinha a meia altura um pavimento de madeira, que a dividia em dois andares com vários compartimentos.[6] Os bens da capela seriam incorporados na coroa, por conta do Hospital de S. José, resultando a completa abolição dos respectivos encargos em 1796. Existe ainda actualmente na Sé de Lisboa, a capela de Bartolomeu Joanes, com construção dos princípios do séc. XIV, em estilo românico e restauro posterior gótico, digna de ser visitada: nela se encontra o túmulo do seu instituidor, com estátua sobre a tampa e epitáfio que nos indica a data do falecimento em 1362 (da era de César, correspondente a 1324 da era cristã), uma inscrição na parede com o regulamento da capela[7] e o presépio da autoria de Machado de Castro.

Para melhor compreensão dos propósitos de Bartolomeu Joanes e para quem for curioso destes assuntos, tomamos a liberdade de aqui deixar um trecho de cópia (com prováveis erros da cópia) do seu testamento, relativo ao hospital:
“... Estabeleço e ordeno hum hospital a honrra de Deos e da Virgem Coroada Santa Maria Rainha dos Anjos, e do bemaventurado Appostollo S. Bartholameo, por cujo o nome eu sou chamado, que ele nom catando os meus merecimentos seja sempre rogador por mim a Deos, e por minha alma que nom seja perdida, e a escolha e leve para si; ao qual esprital mando e quero e ordeno, que se mantenham doze pobres para todo o sempre daquelas coizas que lhe mister fizerem, elhe forem necessárias, e para remover e tirar duvida de qual guiza se deve manter, e para declarar esto minha vontade ordeno que cada hum pobre dos ditos pobres hajam em cada hum dia para sempre de provisão três soldos para pão e para vinho, e para conduto. Item ordeno e mando, que cada um dos ditos pobres hajam em cada hum anno para seu vestir doze covados de contrafeito ou de valenciana para o pellote, e capeirão e saia e para calças. Item vinte soldos para calsadura, e vinte soldos a cada um delles para camisas e panos melhores, e de mais cinco soldos hũa vez do anno para suas sangrias, e quero de mais e ordeno que os ditos pobres de cada dia vão à dita minha capella todalas horas, convem a saber ás Missas e ás vesporas e roguem ahi a Deus por mim que se amerceie da minha alma, como sabe que a mim cumpre; pera o qual esprital mando fazer hum nobre paço pelos meus bens assim como os meus testamenteiros virem que cumpre; e seja feito na freguesia e perto donde fôr a dita minha capella, com tal logar que não seja grande nojo aos ditos pobres quando forem ouvir as horas; no qual paço mando e ordeno que todos comam emsembra a uma tavola, e mando no dito paço pôr doze leitos, e seja cada um leito de uma almadia que é de lã de carneiros, e de uma cocedra de penna, e de uma almaceda de dois chumaços outrossim de penna, e de dois lençoes e de uma manta e uma colcha, e assim a cada um dos outros leitos; no qual quero e mando que haja uma cosinha apartada, em que possam bem cosinhar em guiza que não faça nojo no paço, e não alhures; outrossim que haja hy uma privada para se poderem haver outra casa pequena metão com o dito paço para cosinha, e outra parte para privada ante a comprem, e facam da guiza que da cosinha possão servir no paço por porta que minha vontade é que no dito paço haja tão somente dormidoiro e refeitório, e não al; e a dita cosinha ser estremeada por sy, e como quer que eu a cada hum d’estes pobres mando dar três soldos para comerem em cada dia. Tenho por bem que hajam um mancebo de soldada que lhes merque e cosinhe e uma manceba que lhes sirva e lhes amace; e se tanto sobejar d’esta provisão, manteudos eles, tambem como os de santo, ou melhor, porque os ditos mancebos possam haver suas soldadas pagadas, os meus testamenteiros lhes paguuem desto se nom paguem nos deregido, que ficar de posiçoens desse hospital e capella; e de mais quero que haja hi uma lampada que arça de noite para sempre, que se possam ver estes pobres; e que estes pobres sejam bons e vergonhosos, d’aquelles que houveram algo, e caíram em pobreza, e para se esto cumprir e manter para sempre, mando e ordeno que os meus testamenteiros comprem taes possessões, que rendam muito bem em cada um anno mil livras em salvo, e que esto nom faça nem possa minguar, e comprido todo esto segundo eu mando, do resido que ficar mando que se guarde em cada anno para repairamento e refazimento do hospital, e mantimento dello,...”


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 12
[2] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. VI, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 104-106
[3] A. H. De Oliveira Marques, A Sociedade Medieval Portuguesa – aspectos da vida quotidiana, Lisboa, edições A Esfera dos Livros, 2010, p. 120
[4] Augusto da Silva Carvalho, Crónica do Hospital de Todos-os-Santos, Edição do V Centenário da Fundação do Hospital Real de Todos-os-Santos, 1992, p. 285
[5] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. VI, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 246-247
[6] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. V, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 57-59
[7] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. VI, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 113-119

segunda-feira, 2 de julho de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de S. Denis, de Odivelas


Foi fundado por D. Diniz, sendo anterior a 1325. Foi incorporado no Hospital de Todos-os-Santos.[1]


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de Santo Eutrópio e Santa Bárbara

Em 21 de Agosto de 1308, o bispo do Algarve D. João Soares Alão instituiu a capela de Santo Eutrópio na paróquia de São Bartolomeu, situada quase defronte da Igreja do mesmo nome[1], na freguesia de S. Bartolomeu (posteriormente denominada freguesia de Santiago). À capela anexou um hospital que acolhia 4 pobres dos dois sexos nas casas que o bispo possuía no Largo dos Lóios[2].

- Hospital de Santa Bárbara: em 1343, é citado no testamento de Maria Esteves; existe a dúvida se seria o hospital designado de Santo Eutrópio e de Santa Bárbara.[3]


[1] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. XI, Câmara Municipal de Lisboa, 1938, p. 61
[2] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11
Carlos Guardado da Silva, Lisboa Medieval – a organização a e estruturação do espaço urbano, Lisboa, Edições Colibri, 2008, p. 244
[3] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11

terça-feira, 12 de junho de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de Nossa Senhora de Belém ou dos Palmeiros e Albergaria dos Palmeiros


Fundado antes de 1292 por peregrinos ingleses, situava-se ao sul da igreja da Madalena, na rua do Hospital dos Palmeiros. A Albergaria era anexa ao hospital.[1] Destinava-se a acolher peregrinos que vinham de Jerusalém, aos quais chamavam palmeiros por trazerem palmas bordadas nas suas capas. O hospital tinha associada uma ermida de invocação de Nossa Senhora de Belém; sobre a porta existia um letreiro que assim dizia: “Este Hospital he dos pobres Palmeyros, e Peregrinos e resgatados delle e de outro Hospital de Cacilhas perto d’Almada; os honrados confrades desta cidade de Lisboa na era de 1330”[2], sendo a data referenciada à era de César.
É provável que a sua administração tenha sofrido algumas modificações ao longo dos muitos anos do seu funcionamento, tendo o hospital sido administrado por uma confraria de vinte cidadãos – confraria de Nossa Senhora – segundo Cristóvão Rodrigues de Oliveira (em 1551), ou por vinte e cinco Irmãos dos principais cidadãos desta cidade de Lisboa, que elegiam entre si um provedor e um escrivão que cobravam os foros, segundo o registo do padre José Azevedo Álvaro (após o terramoto de 1755). Havia neste hospital uma hospitaleira, cuja função era de limpar e concertar a casa, e agasalhar os peregrinos.[3] A sua existência está confirmada em 1400, dado que é referenciado no testamento de Catarina Lopes; aí residia na altura Afonso Anes.[4]
Ainda existe a funcionar em 1551, segundo Cristóvão Rodrigues de Oliveira, tendo nesta data renda de oitenta cruzados. Sabe-se também que, por ordem de D. João V, sendo procurador da Coroa o Desembargador João Alves da Costa, foi a sua administração entregue à Congregação do Senhor Jesus dos Perdões, sediada na paróquia de Santa Maria Madalena.[5]  Foi destinado, por alvará régio de 21 de Junho de 1628, a recolhimento de meninos perdidos.[6]
À data do grande terramoto tinha o hospital de renda 86.716 reis, em foros e alugueres de casas; após o desastre e o grande incêndio subsequente, muitas das suas casas se lhe queimaram, ficando apenas com 19.414 reais em foros.[7] Localizado, por altura do terramoto de 1755, na parte ocidental do quarteirão compreendido entre o beco do Cura e a Rua de D. Mafalda (cruzamento das actuais ruas de S. Julião e da Madalena) , temos conhecimento que terá ardido,[8] mas não é possível concluir, pela descrição paroquial ao tempo do terramoto, se o hospital sobreviveu funcionando ou se se extinguiu, como tantas outras coisas na cidade de Lisboa. Certo é que funcionou durante cerca de quinhentos anos, prestando o seu serviço à cidade.


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11 e 12
[2] Paróquias da Baixa-Chiado, Memórias de Uma Cidade Destruída, Alètheia Editores, 2005, p. 117. Vieira da Silva, As Muralhas da Ribeira de Lisboa, 2ª ed., Vol. I, Câmara Municipal de Lisboa, 1940, p. 163-164
[3] Cristóvão Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551 - Sumário (em que brevemente se contêm algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa), Livros Horizonte, 1987, p. 62
[4] Luiz de Macedo, A Rua das Pedras Negras, Lisboa, Edição da UP, 1931, p.24
[5] Paróquias da Baixa-Chiado, Memórias de Uma Cidade Destruída, Alètheia Editores, 2005, p. 112
[6] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Segunda Parte – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. IX, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1937, p. 190
[7] Paróquias da Baixa-Chiado, Memórias de Uma Cidade Destruída, Alètheia Editores, 2005, p. 118
[8] Paróquias da Baixa-Chiado, Memórias de Uma Cidade Destruída, Alètheia Editores, 2005, p. 162

terça-feira, 29 de maio de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - - Hospital de S. Paulo, S. Clemente e Santo Elói e Mercearia de D. Domingos Jardo

           Em Agosto de 1284, concedeu El-Rei D Diniz um privilégio ao Chanceler e bispo de Lisboa, Domingos Eanes Jardo, para que fizesse um hospital nas casas que este possuía no actual Largo dos Loios, na freguesia de S. Bartolomeu, contigua à freguesia de Santa Cruz da Alcáçova; para tal, tinha D. Domingos Jardo comprado ao próprio rei várias propriedades por novecentos marcos de prata lavrados, de modo a constituírem as rendas para o suporte económico do hospital.[1]
       Dois anos depois, em 1286, concedia o rei D. Diniz o padroado da igreja de S. Bartolomeu ao mesmo hospital; na época, possuía o hospital uma capela de invocação de Senhora do Vale e era gerido por doze capelães (ou dez, segundo diversas versões encontradas). 

           Por morte de D. Domingos Jardo, em 1293, foi o hospital entregue aos monges de S. Bernardo, de Alcobaça, que aí permaneceram durante 23 anos,[2] ao fim dos quais o hospital voltou a ter administração como havia sido determinado pelo seu instituidor.
A Mercearia destinava-se inicialmente a 20 merceeiros, 6 estudantes e 15 meninos de escola, sendo este hospital de 20 camas um dos mais importantes de Lisboa.
Em 24 de Abril de 1442, não tendo a administração cumprido os seus deveres, decidiu o infante D. Pedro, regente do seu sobrinho el-Rei D. Afonso V, entregá-la aos cónegos seculares da congregação de S. João Envagelista – os Lóios.[3],[4] - oriundos de Vilar de Frades, diocese de Braga. Quando o hospital se incorporou nesta congregação, ficou associado um colégio, no local ocupado pelo convento de Santo Elói; a capela ou igreja, que albergava o túmulo de D. Domingos Jardo foi mantida, embora modificada após a morte de D. Catarina, filha de D. Duarte, para albergar igualmente a sua sepultura; também aí assistiria à missa a rainha D. Leonor, mulher de D. João II, que habitava em casas junto do convento de Santo Elói, para as quais tinha acesso directo por um passadiço.
Em 1552, as rendas mensais das merceeiras seriam, para cada uma, “quatro alqueires de trigo e cento e trinta reis para conduto, e dois almudes de vinho e uma canada de azeite”.[5]
No Século XVII, encontrando-se a igreja muito arruinada, foi esta demolida para se construir uma outra, parcialmente destruída no terramoto de 1755, tendo sido perdido o rasto ao túmulo da infanta D. Catarina neste desastre. Não encontrei notícia de data do término da função do hospital, sabendo-se porém que o edifício foi afectado nos terramotos de 1531 e 1755, neste último tendo ardido a botica (estaria esta ainda ao serviço do hospital ou apenas apoiando o convento?).[6]
           Em 1834 foram extintas as ordens religiosas e o convento abandonado pelos frades e ocupado pela Guarda Municipal de Lisboa. Em 1883, foi encontrado no meio do entulho de uma escavação no então quartel da Guarda Municipal, o túmulo de D. Catarina, que ficou servindo como lavadouro das praças da Guarda, tendo finalmente sido removido para o Museu do Carmo em 1926. O convento de Santo Elói, muito modificado, encontra-se actualmente ocupado por um Regimento de Infantaria.



[1] Cristóvão Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551 - Sumário (em que brevemente se contêm algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa), Livros Horizonte, 1987, p. 69
[2] Carlos Guardado da Silva, Lisboa Medieval – a organização a e estruturação do espaço urbano, Lisboa, Edições Colibri, 2008, p. 243 - 345
[3] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11 - 12
[4] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. XI, Câmara Municipal de Lisboa, 1938, p. 235
[5] João Brandão (de Buarcos), Grandeza e abastança de Lisboa em 1552, Livros Horizonte, 1990, p. 135
[6] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. XI, Câmara Municipal de Lisboa, 1938, p. 236 - 248

sexta-feira, 25 de maio de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital do Santo Espírito ou do Espírito Santo da Pedreira ou Capela de Dom Adão


Situava-se no local da Pedreira de Lisboa (actualmente Rua Nova do Almada), tendo 10 camas para 10 merceeiras.[1]
Sabe-se que a casa do Santo Espírito já existia em 1279,[2] desconhecendo-se se o hospital seria da mesma época; certa é a sua existência em 1367, confirmada por um documento de emprazamento feito pela Confraria dos Clérigos Ricos a Afonso Esteves e sua mulher de umas casas, “à Pedreira, a par do Hospital do Santo Sp’rito”.[3]
Está referido por volta de 1551: “A igreja do santo Espírito da pedreira está na freguesia de são Gião e são Nicolau. (...) foi fundada antigamente por dom Adão e dona Sancha (...) Há mais dez merceeiras, que têm seu aposento dentro na casa; tem cada uma cada mês cem reis, e todas as esmolas que vêm à casa, que valerão por ano cento e sessenta e cinco cruzados.”[4]
Em 1552 é o hospital descrito como: “Um forasteiro fidalgo, por nome Dom Adão e sua mulher Dona Sancha edificou nesta cidade a casa do Espírito Santo, que está na rua dos Fornos, onde se chama a Pedreira, a qual casa é das mais antigas desta avocação. E acabada, lhe deixou toda a sua fazenda, e deixou ordenado que nela houvesse onze merceeiras e um homem que servisse de tesoureiro, ao qual mandou dar quatro alqueires de trigo e cem rs em dinheiro para conduto, cada mês (...). Em qual casa dizem cada dia dez missas, e está hoje em dia muito bem adornada e perfeita, porque os mercadores desta Cidade, os mais principais, se fizeram confrades da casa, e eles a têm muito bem concertada.”[5] Cerca de 1503, era este hospital incorporado no Hospital Real de Todos-os-Santos,.[6]
O espaço desta casa era delimitado pela Rua dos Fornos e Rua do Canal da Flandres a nascente, Rua do Espírito Santo da Pedreira a poente e Travessa do Espírito Santo a sul. Sabe-se que D. Manuel a enriqueceu e reformou, aumentando ainda os privilégios da Confraria dos Mercadores. No século XVIII alí moravam os Oratorianos e no século XIX foi vendida a Manuel José de Oliveira, 1º Barão de Barcelinhos. Estabeleceram-se mais tarde no local os Grandes Armazéns do Chiado, vitimados pelo devastador incêndio de 1988.[7] Reconstruído cerca de dez anos depois, o edifício que ocupa o local é hoje denominado Centro Comercial do Chiado.

- Hospital e Mercearia de Sancha Dias:
No seu trabalho, Fernando da Silva Correia descreve com esta designação um outro hospital e mercearia, contíguos, localizados na freguesia dos Mártires, junto à Casa do Espírito Santo, fundados por Sancha Dias, mulher do inglês Adam. Refere este autor que a  mercearia tinha 11 camas.[8]
É nosso parecer que este Hospital de Sancha Dias seria o mesmo que o Hospital do Espírito Santo da Pedreira, ao qual João Brandão dá o nome de Capela de Dom Adão. Dadas as semelhanças nas descrições dos três autores, poderemos presumir que durante os séculos de existência desta instituição, ela fosse conhecida por várias denominações, tanto eclesiásticas como populares.


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 12
[2] Gustavo de Matos Sequeira, O Carmo e a Trindade, subsídios para a história de Lisboa, vol. 1, Câmara Municipal de Lisboa, 1939, p. 18
[3] Gustavo de Matos Sequeira, O Carmo e a Trindade, subsídios para a história de Lisboa, vol. 1, Câmara Municipal de Lisboa, 1939, p. 60
[4] Cristóvão Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551 - Sumário (em que brevemente se contêm algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa), Livros Horizonte, 1987, p. 51
[5] João Brandão (de Buarcos), Grandeza e abastança de Lisboa em 1552, Livros Horizonte, 1990, p. 135
[6] Mário Carmona, O Hospital Real de Todos-os-Santos da Cidade de Lisboa, 1954, p. 154
[7] João Brandão (de Buarcos), Grandeza e abastança de Lisboa em 1552, Livros Horizonte, 1990, Nota Explicativa, p. 232
[8] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 12

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital dos Meninos


Este hospital, que tinha igreja própria era destinado a abrigar meninos órfãos e engeitados, situava-se na Mouraria, fora das muralhas da cidade, na proximidade da Capela de Nossa Senhora da Saúde na Rua Direita da porta de São Vicente, actual Rua do arco do marquês do Alegrete nºs 20, 22, 24, 30 e 46 a 50[1]. Foi esta instituição, fundada por D. Brites ou Beatriz de Gusmão, mulher de D. Afonso III, antes de 1258, sendo o seu provedor directamente escolhido pelo rei. Anos mais tarde, a Rainha Santa Isabel e seu marido D. Dinis, filho de D. Afonso III, deram-lhe bens. Tendo sido depois incorporado no Hospital de Todos-os-Santos, parece ter ainda ficado com autonomia, uma vez que foi posteriormente ampliado e restaurado, por ordem de D. Catarina, mulher de D. João III.[2]


[1] Augusto da Silva Carvalho, Crónica do Hospital de Todos-os-Santos, Edição do V Centenário da Fundação do Hospital Real de Todos-os-Santos, 1992, p. 284
[2] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 10-11