Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospitalinho



Não conhecemos muito da história desta instituição, mas sabemos que foi fundado no séc. XIV por João Afonso Alenquer, localizando-se no actual cruzamento das ruas Garret, Serpa Pinto e da Trindade, ao Chiado.[1] Dele ainda encontramos referência, na freguesia dos Mártires, em 1758: “Na rua do Ferragial, limite desta freguesia até ao tempo do terramoto havia uma lojas, chamado o Hospitalinho, em que habitavam algumas pobres por provimentos que lhe davam os Irmãos da Mesa da Irmandade de Santo António dos Nobres sita no convento de São Francisco da Cidade como administradores do dito Hospitalinho.”[2]

- Hospitalinho (petit hôpital):
Nous ne savons pas beaucoup sur l'histoire de cette institution, mais nous savons qu'elle a été fondée au XIVe siècle par João Afonso Alenquer, localisée sur l'intersection des actuelles rues Garret, Serpa Pinto et Trindade, au Chiado. On parle encore de l´hôpital, situé dans la paroisse des Martyrs, en 1758: «Dans la rue de Ferragial, à la limite de cette paroisse, jusqu'au moment du tremblement de terre il y avait une maison appelée l’Hospitalinho, dans lequel ont vécu quelques femmes pauvres, avec l’aide des Frères de la Confrérie de St. Antoine des Nobles qui habitaient dans le couvent de Saint François, administrateurs de l’Hospitalinho."

- Hospitalinho (small hospital):
We do not know much about the history of this institution, but we know it was founded in the 14th century by João Afonso Alenquer, and situated on the intersection of actual Garret, Serpa Pinto and Trindade streets, in Chiado. We still find mention of it, in the parish of Martyrs, in 1758: "In the Ferragial street, boundary of this parish until the time of the earthquake, there was a house called the Hospitalinho, where lived some poor ladies with the donatives of the St. Anthony of the Nobles Brotherhood, that was located in the San Francisco convent, who was the Hospitalinho administrators."


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11
[2] Paróquias da Baixa-Chiado, Memórias de Uma Cidade Destruída, Alètheia Editores, 2005, p. 86

SANTOS-O-VELHO - Período Romano: Histórias e lendas


O lugar a que hoje chamamos de Santos-o-Velho é ocupado pelos povos desde há vários séculos.
Da ocupação romana conhecemos a existência de uma estrada que partia da cidade, atravessava o esteiro do Tejo onde se localizava o porto interior de Olisipo (no local da actual Rua do Arco do Bandeira), provavelmente por uma ponte de tabuleiro de madeira antecessora da ponte medieval da “Galonha”, contornaria a encosta do Carmo até ao Chiado e ao Largo de Camões, seguiria em direcção ao Calhariz até ao local onde mais tarde se abriria a porta de Santa Catarina na Cerca Fernandina e tomaria provavelmente a direcção do Guincho. Ao longo dessa estrada, de características rurais, localizavam-se numerosos casais ou villae de grande qualidade, não sendo portanto difícil de imaginar que alguns deles ocupariam a área que hoje designamos por Santos-o-Velho.[1]
Certa é a ocupação romana durante a Antiguidade Tardia, da qual parece provir uma inscrição romana encontrada por André de Resende no jardim do Palácio de Santos, onde se achava guardada, ao tempo de D. Francisco de Lencastre no século XVII, que ele, juntamente com o seu amigo Francisco de Holanda copiou e que assim dizia:[2]

L. VALERIVS. GAL.                      Lúcio Valério Galo
            SEVERVS. NA. L.                       Severo, de cinquenta anos,
H. S. EST. T. L. FILI....                  aqui está sepultado. Tito, filho de Lúcio
PATRI. P. C. ET.                           lhe erigiu esta memória, juntamente com
Q. SERTORIVS.                           Quinto Sertório
CALVVS. AFFINIS.                      Calvo, seu parente.

Desconheço o destino de tal inscrição, que parece ter-se esfumado do património lisboeta desde então.
No período romano a religião cristã foi assumida no séc. IV pela cidade episcopal. No entanto, o imperador Diocleciano desencadeou no ano de 303 até ao ano de 305, uma forte perseguição aos cristãos por todo o seu império.
Provém do período romano a conhecida lenda dos três mártires, considerados Santos, que foram supliciados na cidade e executados por ordem do prefeito romano Daciano[3]. Por outo lado, segundo um cruzado que participou na conquista de Lisboa ao lado de D. Afonso Henriques, o Arcebispo de Braga discursou sobre a muralha da cidade, por altura de um pacto de tréguas para conversações entre as partes, na tentativa do rei português obter a rendição pacífica da cidade, do seguinte modo: “... Na mesma cidade é testemunha disso [da destruição da fé cristã] o sangue dos mártires Máxima, Veríssimo e Júlia virgem, derramado pelo nome de cristo, no tempo de Ageiano, governador romano.”[4] Segundo a lenda, os três mártires seriam irmãos, provenientes de Roma (outra versão dá como Lisboa a sua origem) e parece terem sido supliciados pelas autoridades romanas; após o suplício, que culminou na sua morte, os corpos foram atados a pedras e deitados ao rio Tejo entre Lisboa e Almada, tendo os corpos sido arrojados à costa num local a poente da urbe de Lisboa; os mártires Veríssimo, Máxima e Júlia[5] constituíram assim a génese de devoção do povo cristão neste local.
Sabe-se que as primeiras referências aos três santos mártires de Lisboa se encontram no Martirológio de Usuardo, monge benedictino falecido cerca de 858 ou 876, consoante diversas as versões e parece que lhes foi construído um templo, ao tempo dos visigodos, no local aproximado ao que hoje designamos por Santos-o-Velho.
Santos Mártires Veríssimo, Maxima e Júlia - Desembarque em Lisboa (séc. XVI, óleo sobre madeira, Museu Carlos Machado)

Não parecem restar dúvidas sobre a ocupação romana do local, assim como da existência de três cristãos aí supliciados, eventualmente no séc. IV, cujo culto, iniciado neste arrabalde de Lisboa, se haveria de generalizar por todo o território português, perdurando no local original durante muitos séculos.



[1] Carlos Guardado da Silva, Lisboa Medieval, 2ª Ed. ed. Colibri, 2010, pg. 49
[2] Júlio de Castilho, A Ribeira de Lisboa, vol. V, 2ª Ed., Câmara Municipal de Lisboa, 1944, pg.73
[3] Mário de Gouveia in Lisboa Medieval – os rostos da cidade, ed. Livros Horizonte, 2007, pg. 372
[4] Autor desconhecido, A Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147 – Carta de um cruzado inglês, 2ª ed.; Livros Horizonte, 2004, pg 41
[5] Flores, Espanha Sagrada, tomo XIV, pg 397.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de Santo Estaço


Encontramos pouca e vaga informação sobre este hospital; enquanto um autor refere que não se lhe conhecia a localização,[1] outro situa-o na Praça dos Escravos.[2] A sua fundação, cerca de 1389, deve-se a Pero Esteves e sua mulher Clara Afonso, que determinaram “que nem rei nem prícipe, nem arcebispo ou bispo, tivessem nada que ver com o estabelecimento pio que eles ordenavam”. Em 1489, não existindo descendentes dos fundadores, interveio D. Afonso V nomeando um administrador, “contanto que ele cumpra o compromisso do dito hospital assim e pela guisa que o ordenaram os sobreditos defuntos em seu testamento”. Desconhecemos toda a sua história posterior ou a data da sua extinção.

Sabemos da existência de um Pero Esteves, apelidado o Barbadão, que foi progenitor de uma dama chamada Inês, amante de João I e mais tarde comendadeira do convento de Santos. Desta relação nasceu D. Afonso, o qual casou com D. Beatriz, filha de D. Nuno Álvares Pereira, donde procede a Casa de Bragança.[3] Não poderemos, no entanto, afirmar que se trata da pessoa que fundou o hospital, por carência de documentos comprovativos.



- Hôpital de Saint Estácio:
Nous avons trouvé peu d'information sur cet hôpital ; ainsi qu'un auteur a déclaré qu'il ne connaissait pas son emplacement, l'autre le situe sur la Praça dos Escravos (Place des Esclaves). Sa fondation, autour de 1389, se doit à Pero Esteves  et à sa femme Clara Afonso, qui ont déterminé « que ni roi ni prince ou archevêque ou évêque, n'avait rien à voir avec la mise en place de l’établissement qu'ils avaient commandé. » En 1489, il n'y avait pas de descendants des fondateurs, et le roi Afonso V a nommé un administrateur, «tant qu'il répond à l'engagement déclaré de l'hôpital et au désir que le testament avait ordonné." Nous ne savons pas plus de son histoire ou à la date de sa extinction.

Nous savons de la existence d’un Pero Esteves, surnommé le Barbadão, qui était père d'une dame qui s'appelle Agnès, amant de Jean Ier et plus tard supérieure du couvent de Santos (Saints). De cette relation est née Afonso, qui a épousé Béatrice, la fille de Nuno Álvares Pereira, de qui procédé le titre de Bragança. Nous ne pouvons pas, cependant, affirmer que c'est la personne qui a fondé l'hôpital, pour faute de documents.

- Saint Estácio Hospital:
We found little information and vague information about this hospital; while one author stated that he did not know the location, another tells that is located in the Praça dos escravos (Slaves’ Square). Its foundation, around 1389, was due to Pero Esteves and his wife Clara Afonso, which determined "that neither king nor prince or archbishop or bishop, had nothing to do with the pious establishment they ordered." In 1489, as there are no descendants of the founders, intervened King Afonso V, appointing an administrator, "as long as he meets the stated commitment of the hospital like the deceased founders said in their will." We do not know more about its history or the later date of their extinction.

We know a man named Pero Esteves, dubbed the Barbadão, who was progenitor of a lady called Agnes, lover of King John I and later a Santos (Saints) convent superior nun. Of this relationship was born Afonso, who married Beatrice, the daughter of Nuno Álvares Pereira, whence the House of Braganza. We cannot, however, assert that it is the same person who founded the hospital, for lack of documents.


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 12
[2] Mário Carmona, O Hospital Real de Todos-os-Santos da Cidade de Lisboa, 1954, p. 153

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de campanha durante o cerco de Lisboa de 1384


Em Maio de 1384 chega a Lisboa a frota do rei D. João de Castela, tendo como objectivo cercar a cidade; desembarcadas as tropas, montaram arraial junto ao mosteiro de Santos (no qual o próprio rei se hospedou), ocupando o território até Alcântara e Campolide; pelo lado do rio, as embarcações montaram cerco desde Cataquefarás até à Porta da Cruz. O Mestre de Avis entendeu então fazer a defesa da cidade ao longo de toda a extensão da sua muralha, tendo encerrado as portas, as quais só eram abertas durante o dia; a guarda dos muros foi repartida por fidalgos e cidadãos honrados, que tinham sob o seu comando besteiros e homens de armas, formando quadrilhas.
Junto à porta de Santa Catarina foi então montado um verdadeiro hospital, tal como nos relata primorosamente Fernão Lopes: “Acerca da porta de Santa Caterina, da parte do arreal per onde mais acostumávom sair à escaramuça, estava sempre uma casa prestes, com camas, e ovos, e estopas, e lençóis velhos pera romper, e celorgião, e triaga, e outras necessárias cousas pera pensamento dos feridos, quando tornávom das escaramuças.”[1]
Poderemos considerar que se tratava de um verdadeiro hospital militar, com predomínio na área da cirurgia, como é habitual neste tipo de hospitais e onde se destacava a presença, aparentemente constante, de um cirurgião (celorgião), fármacos (triaga) e material de penso. Os ovos e a estopa eram usados numa mistura muito popular até ao século XVIII, denominada estopada, e dos lençóis velhos se faziam ligaduras para envolver as feridas.
Terá porventura sido o primeiro hospital de Lisboa com médico residente?

Hôpital de campagne pendant le siège de Lisbonne en 1384:
En mai de 1384 la flotte du roi Jean de Castille arrive à Lisbonne, dans le but d'encercler la ville ; on a fait débarquer les troupes, qui s’installent dans un campement près du monastère de Santos (où le roi lui-même a séjourné), occupant le territoire jusqu'à Alcantara et Campolide; du côté du fleuve, les bateaux ont assemblé un siège depuis Cataquefarás jusqu’à la Porta da Cruz (Porte de la Croix). Le Maître d'Avis (qui sera le futur roi Jean I) a compris alors de faire la défense de la ville sur toute la longueur du mur et a demandé de fermer les portes, qui étaient ouvertes uniquement pendant la journée; la garde des murs a été divisé par de nobles et honorables citoyens, qui avaient le commande de groupes de arbalétriers et d’hommes d'armes.
Près de la porte de Santa Catarina fût monté un vrai hôpital, à croire dans les mots de la chronique de Fernão Lopes: «Près des Portes de Santa Catarina, sur la place où étaient la plupart des gens d’armes et où l'escarmouche était plus fréquente, il y avait toujours une maison avec des lits, et d’œufs, et d’étoupière, des vieux draps de lit pour déchirer, avec un chirurgien et thériaque, de matériel de pansement et d'autres choses nécessaires pour traiter les blessés lors qu’ils arrivent de l’escarmouche.» [1]
Nous considérons qu'il s'agit d'un véritable hôpital militaire, principalement dans le domaine de la chirurgie, comme il est habituel dans ce type d'hôpitaux de guerre, où se détachait la présence, apparemment constante, d’un chirurgien, des médicaments (thériaque) et matériel de pansement. Les œufs et toile de étoupière étaient utilisés dans un mélange très populaire jusqu'au XVIIIe siècle, appelé estopada, et les vieux draps s’utilisaient pour faire bandages aux blessures.
Peut être que cet hôpital a été le premier hôpital de Lisbonne avec un médecin résident.

Field hospital during the siege of Lisbon in 1384:
In May 1384 the fleet of King John of Castile arrives at Lisbon, aiming to encircle the city; they landed troops, set up a camp near the monastery of Santos (in which the king himself stayed), occupying the territory between Alcantara and Campolide; by the river side, the boats surround the city from Cataquefarás to the Porta da Cruz (Cross door). The Master of Avis (future King John I) made the defense of the city along the entire length of the wall, and closed the city doors, which were open only during the day; the wall’s defense was shared by noblemen and honorable citizens, who had groups of cross-bowmen and soldiers under their command.
At the door of Santa Catarina was then mounted a real hospital, as reported in Fernão Lopes chronicle: "Near the Santa Catarina door, the local part where most of troops are and the skirmish occurs, was always a house with beds, and eggs, and oakum, and old sheets to be teared, and surgeon and theriac, dressing material and other necessary things to the wounded dress when they return of skirmishes." [1]
I consider that this was a true military hospital, predominantly in the area of surgery, as was usual in this type of war hospitals, and stood with the presence, apparently constant, of a surgeon, drugs (theriac) and dressing material. Eggs and oakum were used in a mixture very popular until the eighteenth century, called estopada, and old sheets were used to make bandages for wounds.
Perhaps it was been the first hospital in Lisbon with a resident doctor.




[1] Fernão Lopes, Primeira parte da Crónica de D. João I, vol III, 2ª ed., Lisboa, Livrarias Aillaud & Bertrand, 1922, p. 24-25

domingo, 14 de outubro de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de Salomão Negro


Temos conhecimento de numerosos judeus no território do reino de Portugal desde antes da fundação da nacionalidade até ao século XV. Tendo a comunidade hebraica um importante papel na sociedade portuguesa, nomeadamente junto do rei, aconteceu que, por força do contrato de casamento de D. Manuel I com a filha dos Reis Católicos, foram os judeus obrigados à conversão ao cristianismo ou à expulsão de território nacional, em 1497. A comunidade judaica circulava livremente pelo território nacional mas estava sujeita a leis de apartamento, em que as habitações teriam de se concentrar num determinado local; no entanto, era livre de manter e praticar a sua religião e possuía magistratura própria para o julgamento dos seus crimes, sem que fosse esquecida a sua submissão às ordenações gerais do país. Obrigados a viver nas cidades apartados de cristãos e muçulmanos, os judeus habitavam nas diversas Judiarias de Lisboa. Inicialmente, as judiarias comunicavam livremente com o exterior, mas D. Pedro I decretou que fossem encerradas por portas, as quais se encerravam ao anoitecer, para serem novamente abertas ao nascer do sol. A Judiaria Velha ou Judiaria Grande de Lisboa localizava-se na freguesia da Madalena, num espaço limitado geograficamente pelas igrejas de S. Nicolau a oeste, Madalena a oriente, S. Julião a norte e rua Nova dos Mercadores a sul.[1] A comunidade judaica possuía escolas próprias, cultivando os estudos de Astrologia, Matemática, Geografia, Medicina e Cirurgia; tendo longa tradição no exercício da Medicina, vários médicos judeus progrediam com altos cargos na corte portuguesa. Talvez a família hebraica mais importante do reino fosse a família Ibn Yahya, com vários dos seus elementos exercendo o cargo de Rabi-mor de Portugal, por nomeação régia. Chegou-nos o conhecimento de muitos médicos importantes dessa família, nomeadamente Yahya ibn Ya’ish, “o Negro” (físico de D. Afonso Henriques), Moshe Gedaliah ibn Yahya ou Moisés Navarro de Santarém (físico de D. Pedro I), Gadaliah ibn Yachya ha-Zaken (físico-mor de D. Fernando), Yehudah ibn Menir ibn Yahya / Navarro (tesoureiro e físico de D. Pedro I e D. João I), Moshe Navarro, também conhecido por Mestre Moussem (físico de D. João I), Gedaliah ben Shlomo ibn Yahya ou Mestre Guedelha (físico e astrólogo de D. Duarte e D. Afonso V) e Abraham Guedelha ou Mestre Abram (físico-mor da princesa D. Beatriz, cunhada de D. Afonso V[2]).
No contexto das leis de apartamento, torna-se natural que a abastada comunidade judaica possuísse hospitais próprios, sendo que o local mais apropriado em Lisboa se situasse na Judiaria Grande; tomámos conhecimento de dois hospitais situados nesse bairro de judeus, sendo um deles hospital de banhos e o outro conhecido como Hospital de Salomão Negro. Este último encontrava-se localizado na Rua da Praça, ao Poço da Foteia, na área actualmente situada entre a Rua do Comércio e a Rua de S. Julião. Foi fundado por Shlomo ibn Yahya ben David, também conhecido como Salomão Guedelha ou Salomão Negro, judeu (1367-1430), que o legou, com mais bens, à comuna dos judeus.O hospital foi incorporado no Hospital de Todos-os-Santos[3]  cerca de 1503.


[1] João Silva de Sousa, Mouros e Judeus na Cidade de Lisboa nos séculos XIV e XV, http://triplov.com/letras/Joao_Sousa/mouros-e-judeus/index.htm
[2] Reuven Faingold, Judeus nas cortes Reais Portuguesas, www.reuvenfaingold.com/artigos/12.pdf
[3] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Hospital de D. Maria Aboim (ou de Boim)


D. Maria Anes de Aboim era filha de D. João de Aboim, Mordomo-mor do rei D. Afonso III, tendo recebido de seus pais a vila e castelo de Portel, Vila Boim e vários outros bens, foi casada com o fidalgo espanhol D. João Fernandes de Límia; já viúva desde 1316, sem descendência, lavrou o seu testamento em Lisboa, a 30 de Julho de 1337 (1375 na era de Cristo), no qual deixou fundado um hospital, falecendo nesse mesmo ano. Consideramos então o hospital como fundado em 1375, tendo 10 camas destinadas a merceeiras.[1]
No testamento de D. Maria Aboim poderia ler-se: “filho as minhas casas dapar de S. Domingos de Lisboa, também as de morada, como as foreiras para deus e mando que os meus testamenteiros façam em elas um hospital em que ponham dez mulheres pobres no dito hospital, que sejam de boa nomeada e um homem para ser Albergueiro e mandarão que lhe deem em cada um ano seis côvados de valenciana a cada uma e ao Albergueiro e de dois em dois anos a elas e ao Albergueiro sapatos e vinte soldos para camisas e cada dia dezoito dinheiros a cada uma para comer”. D. Maria deixou ainda ao hospital bens existentes em Lisboa, Sintra, Mafra e Leiria, pratas, alfaias, azêmolas e toda a liteira (roupa de cama). [2]
O hospital ficava situado na freguesia de Santa Justa, perto de S. Domingos, a norte do Paço dos Estaus e encostando-se no seu lado norte à Torre da Inquisição da muralha fernandina, que pertencia ao hospital;[3] esta situação localiza-nos na actualidade no quarteirão situado na Praça D. João da Câmara, a norte do Teatro D. Maria II.
Foi o hospital administrado durante muitos anos pela Câmara de Lisboa; sabe-se que um dos seus Provedores foi Lourenço Anes Curto, provedor de 1389 a 1404 e de 1406 a 1407, ano em que foi exonerado por D. João I, devido a incompetência e falta de zelo, a pedido da Câmara; o rei autoriza o Conselho de Lisboa, que governava à data o estabelecimento,[4] a nomear novo provedor e compromete-se a liquidar as dívidas que Lourenço Anes tivesse contraído no exercício do cargo. D. João II, seguindo a sua política de poder sobre as instituições, particularmente sobre os hospitais, assume a administração em substituição da Câmara. Sabe-se ainda que continuava o seu funcionamento no ano de 1492, quando se foi feito um aforamento de umas casas que lhe pertenciam, por Estevão Martins, Mestre Escola na Sé e Provedor-mor e juiz dos Hospitais, Albergarias, Confrarias e Capelas de Lisboa.[5]
Tendo sido incorporado no Hospital de Todos-os-Santos,[6] manteve-se ainda a Mercearia em funcionamento, anexa ao Hospital Real, com o ordenado de dois mil cento e quarenta reis por ano, albergando com dez merceeiras,.[7]


[1] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 10
[2] Augusto da Silva Carvalho, Crónica do Hospital de Todos-os-Santos, Edição do V Centenário da Fundação do Hospital Real de Todos-os-Santos, 1992, p. 285-286
[3] A. Vieira da Silva, A Cerca Fernandina de Lisboa, vol. I, Câmara Municipal de Lisboa, 1948, p. 102
[4] A oligarquia camarária de Lisboa (1325-1433), Anexo I – Corpo Prosopográfico, p. 552, em http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/569/7/17434_7-Anexo_1.pdf
[5] Mário Carmona, O Hospital Real de Todos-os-Santos da Cidade de Lisboa, 1954, p. 55
[6] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 11
[7] João Brandão (de Buarcos), Grandeza e abastança de Lisboa em 1552, Livros Horizonte, 1990, p. 130

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

OS HOSPITAIS MEDIEVAIS DE LISBOA - Mercearias de D. Afonso IV e da rainha D. Brites


Foram instituídas por D. Afonso IV e sua mulher D. Brites (ou Beatriz), localizando-se inicialmente defronte do Campo das Cebolas, na Ribeira Velha, segundo João Batista de Castro.[1]
Sabemos que El-rei D. Diniz teve vários filhos bastardos, entre os quais se conta D. Fernão Sanches, a quem o monarca fez muitas doações: a aldeia de Recadães em 1294, a herdade da Orta de Nomão em 1300, a lezíria dos Pastos no termo de Santarém em 1303,o Reguengo de Oliveira do Conde em 1306. Casado com D. Froilha Annes de Briteiros e sem filhos, doou ainda em vida a seu meio-irmão D. Afonso IV, as herdades que possuía no termo de Santarém. Pensa-se que D. Fernão Sanches terá morrido pouco depois de 13 de Novembro de 1327. D. Afonso IV presenteou a rainha D. Brites com estas herdades, anexando-as às capelas e hospital que instituiu em Lisboa.[2]
No seu testamento redigido em 1345, o rei D. Afonso, falecido a 29 de Maio de 1357, instituiu um hospital para “homens e mulheres pobres, […] que nas casas que nos compramos na freguesia da Sée se faça hum hospital a serviço de Deus, no qual se mantenhão para sempre vinte e quatro pobres”, tendo igualmente deixado um regulamento para o funcionamento da instituição.[3] Aí se alojavam 12 merceeiros e 12 merceeiras.[4]
Em 1354,D. Afonso IV e a Rainha D. Beatriz instituem uma capela na Sé de Lisboa fazendo-lhe doação, com excepção das propriedades pertencentes aos mostairos de Arouca e Lorvão, de todo o conselho de Alverca, como consta no trasladado no Tombo das Capelas: “[...] com consentimento, outorgamento e prazimento do Infante Dom Pedro noso filho e do infante D. Fernando noso neto, damos e doamos haa dita nosa capella que he fundada na igreja catedral de Lixboa (...) pera mantimento dos capellaees e pobres e dos outros encarreguos dessa capella e sprital a nosa Villa d’Alverca, que chamã de comdado, com todos seus termos e com toda pose e propriedade e com todallas herdades e vinhas, olivaees, pumares, casas, foros, juguados, per qualquer maneira que as nos asy avemos, e todollos outros dereitos, pertenças que a nos peertençam [...].”O mesmo aconteceu com terras de Viana do Alentejo e do Gradil. [5]
Em 1410 as terras das Capelas eram quarteiras, isto é, os moradores de Alverca eram obrigados ao pagamento de um quarto da produção de vinho, cereais, azeite, frutas, legumes e linho para aquela instituição.[6]
Encontramos referência a este hospital num alvará de el- Rei D. João I, datado de 26 de Agosto de 1429, ordena o monarca que Afonso Peres, provedor das mercearias, mandasse encerrar os portões do hospital, de modo a evitar  “... Que pessoas, assim homens como mulheres vão dentro do dito esprital, e que levam a ello bestas e cães mortos, e esterco (...) para os lançarem ao mar per cima do muro, ...”, assim como outros estragos que enumera. Em 1430 era provedor deste hospital Gonçalo Esteves.[7]
Em 1453 os moradores de Alverca recusavam pagar o quarto de azeite, frutas, legumes e linho, e em 1456 D. Afonso V emitia um documento onde permitia a obrigação de apenas pagarem um quarto de azeite, vinho e cereais, assim como um cesto de azeitonas, em cada dez produzidos. Em 1501, a maior parte das fazendas de Alverca pagavam somente um sexto da produção daqueles produtos.[8]
No Tombo das propriedades da Câmara de Lisboa, comprova-se a modificação da localização desta Mercearia cerca do ano de 1543, situando-se então nas traseiras da igreja de Santo António, local onde parece ter ficado até ao tempo de terramoto de 1755: “da banda do norte parte com terra firme, e muro que estaa debaixo da mercearia das Merceeiras das capelas delrrey D. Afonso […]”.[9] Teremos ainda dela referência no ano de 1551, nas palavras de Cristóvão Rodrigues de Oliveira: “está na Sé a capela d’El-Rei D. Afonso o quarto, e da Rainha D. Brites, sua mulher, onde estão sepultados na capela-mór: a qual tem dez capelães, e doze merceeiros, e doze merceeiras. E tem de renda mil e quinhentos cruzados.”[10] Refere João Brandão que a mercearia tinha vinte merceeiros, dez homens e dez mulheres, com aposentos apartados não podendo constituir-se casais, e que teriam de ser “pessoas honradas e de boa vida e fama”. Usufruíam para seu sustento quatro alqueires de trigo e trezentos reis em dinheiro, para conduto, duas canadas de azeite e um saco de carvão; em cada dois anos e meio davam-lhes dois mil reis para vestuário e as casas seriam limpas semanalmente.[11] Em 1589 era juiz das Capelas, Heitor Furtado de Mendonça.[12]
Em 1785 construiu-se ao pé da igreja de S. Jorge (actualmente desaparecida), na Rua do Limoeiro, actualmente Rua Augusto Rosa nº 15, uma casa para os merceeiros; sobre a porta foi colocada uma inscrição que o atesta:
Casas para
Habitação dos merceeiros do SNR. REY
D. AFFONSO IV e Merceeiras da SNR.ª RAYNHA
D. BEATRIZ Sua Mulher novam.te edificadas
Pelo favor e ordem da RAYNHAFIDELLISSIMA
D. MARIA I nossa SENHORA em o Anno de
MDCCLXXXV
Sendo Provedor D. Caetano de Noronha

Em 1837, as Capelas passam a ser designadas como Reaes Merciarias do Senhor Rei D. Affonso 4º, tendo passado, a administração para o Ministério do Reino. Esta alteração fez cessar a cobrança de rendas  até então da responsabilidade dos provedores, pelo que os Mercieiros e Mercieiras ficaram sem rendimentos, apelando então à rainha: “[…] a Graça de Numiar pesoa que se encarregue de cobrar Exzecutar e promover tudo quanto se lhe deve e lhes pertense pelas exzecuçoes que Exzistem perparadas mesmo com pinhoros e depozitarios e tudo o mais como foros certos em Sabtarem em Alhandra Alverca e Gradil Vianna do Alentejo e finalmente em qualquer parte onde exzistiaõ Bens, e Rendas desta Repartiçaõ q lhes foraõ aplicadas pelos Reaes Instituidores param sua sustentçaõ conforme a declaraçaõ em seos Testamentos os suptes Real Senhora cheios de fome e afliçaõ vem por este modo aos Reaes Pés de V. Magestade Implorar”[13]
A instituição foi, por decreto de 26 de Novembro de 1851, incorporada no Asilo de Mendicidade.[14] No entanto, a instituição continuou a ser foreira de várias propriedades em Alverca, pelo menos até 1875.[15]



[1] João Batista de Castro, Mappa de Portugal, tomo I, p. 348, citado em Carlos Guardado da Silva, Lisboa Medieval – a organização a e estruturação do espaço urbano, Lisboa, Edições Colibri, 2008, p.168
[2] D. João I, Livro da Montaria, (Apêndices), publicado por Francisco Maria Esteves Pereira da Academia de Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1918, p. 453-454, em http://purl.pt/14553/2/sa-7118-v_PDF/sa-7118-v_PDF_24-C-R0150/sa-7118-v_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf
[3] Carlos Guardado da Silva, Lisboa Medieval – a organização a e estruturação do espaço urbano, Lisboa, Edições Colibri, 2008, p. 224
[4] Fernando da Silva Correia, Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal nº 10, Câmara Municipal de Lisboa, 1941, p. 12
[5] Anabela Silva Ferreira, Casa da Câmara de Alverca – Conhecer a sua História, Valorizar um Património, Dissertação de Mestrado em Estudos do Património, Universidade Aberta, Lisboa, 2007, p. 41-42
[6] Anabela Silva Ferreira, Casa da Câmara de Alverca – Conhecer a sua História, Valorizar um Património, Dissertação de Mestrado em Estudos do Património, Universidade Aberta, Lisboa, 2007, p. 42
[7] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. VI, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 35-37
[8] Anabela Silva Ferreira, Casa da Câmara de Alverca – Conhecer a sua História, Valorizar um Património, Dissertação de Mestrado em Estudos do Património, Universidade Aberta, Lisboa, 2007, p. 43
[9] Luis Lourenço, Livro Primeiro do Tombo das Propriedades foreiras à Câmara, Edição da Câmara Municipal de Lisboa, 1950, p.9
[10] Cristóvão Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551 - Sumário (em que brevemente se contêm algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa), Livros Horizonte, 1987, p. 18
[11] João Brandão (de Buarcos), Grandeza e abastança de Lisboa em 1552, Livros Horizonte, 1990, p. 134
[12] Anabela Silva Ferreira, Casa da Câmara de Alverca – Conhecer a sua História, Valorizar um Património, Dissertação de Mestrado em Estudos do Património, Universidade Aberta, Lisboa, 2007, p. 43
[13] Anabela Silva Ferreira, Casa da Câmara de Alverca – Conhecer a sua História, Valorizar um Património, Dissertação de Mestrado em Estudos do Património, Universidade Aberta, Lisboa, 2007, p. 51
[14] Júlio de Castilho, Lisboa Antiga – Bairros Orientais, 2ª ed., vol. VI, Câmara Municipal de Lisboa, 1936, p. 37-38
[15] Anabela Silva Ferreira, Casa da Câmara de Alverca – Conhecer a sua História, Valorizar um Património, Dissertação de Mestrado em Estudos do Património, Universidade Aberta, Lisboa, 2007, p. 52